Above the “Marombas”

The Pandemic in the Amphibious Amazon

by | Aug 5, 2021

 

 

In June of the second year of the new biological or biocultural plague ravaging humanity, I crossed the wooden bridges of the small Amazonian community of Cacau Pirêra, in the district of the municipality of Iranduba, located in Amazonas, in the north of Brazil. With a strapless camera in hand and afraid to fall with each step I took on the maromba, I spent the day getting to know this resilient amphibious community located a few miles from the capital Manaus. In case you were wondering, the maromba is a wooden structure typical of the Amazonian region, made for walking above water level, and improvised by the residents.

My attempt to juggle through these “roads of wood,” which are thrifty but effective at keeping passersby dry and out of contact with the stagnant water on the floor, demonstrated an explicit counterpoint to the residents that received me with smiles that seemed to say, “It will get better, we’ve had it worse.” For the Cacau Pirêra community, living on the banks of the river and experiencing all its idiosyncrasies is an ambiguous situation, a condition in the sense of exclusion.

According to the Defesa Civil do Amazonas (Amazonas Civil Defense Unit), around 450,000 people throughout the state have been hit by the floods. This is the equivalent of one out of every ten people in the federation, which has had 58 of its 62 municipalities affected.

 

The terrible impact of the virus in Amazonas is even worse when we look at Brazil at a national level, where the number of deaths has passed 534,000 people as I write these words. A large part of these deaths could have been avoided if Brazil had even remotely followed the international example in terms of vaccine acquisition and application. However, what some would consider genocide was heightened by the disastrous administration of the government of Jair Bolsonaro, which continues to underestimate the true quantity of victims, as many deaths remain unaccounted for.

In the last few days, the local papers in Amazonas—there is little or no media interest at a national level—have traced the intense movement of river waters in the northern state. This is a historical natural phenomenon in the region if it weren’t for the fact that, on the first day of June, the Rio Negro reached a high-water mark of 99 feet in the capital of Manaus, the highest since measurements began almost 120 years ago.

 

In the center and the suburbs of the so-called “Paris of the Tropics,” where commerce is intense and pulses in the wide avenues and narrow lanes, the floods have already caused the closure of various shops, establishments that had already been vulnerable since the new coronavirus pandemic began.

Without getting into the debate on climate change, these extreme floods have resulted in more problems for the already punished Amazonian public health system, which is a peculiar microcosm within the Brazilian context. In addition, it is common for floods to cause massive social and economic impacts: loss of infrastructure, the destruction of property and important sectors for the local community, such as agriculture and the harvest on the river floodplains, and the synergic entities of the very people that live there. It is important to highlight that the floods are also the fruit of the joint response of the forest to the violence practiced upon it.

A new escalation of the Covid-19 pandemic would worsen these problems. Forced displacement obliges these people to move in with friends and relatives in houses with little space, environments overcome by the waters, or to share hospitals, boats or shelters in gymnasiums with other neighbors affected by the floods. This type of situation ends up generating sanitary insecurity, facilitating infection and fostering the potential for the spread of new variants of the coronavirus, as already warned by national and international entities.

 

However, there are those that resist adversity. This is the case of the owner of a small kiosk selling fruit at the Manaus Moderna Market, Edvaldo Diniz. The market trader brings a vision of men and women used to having their lives affected by the river. “We had a collection with our colleagues to buy wood and build supports to find a way to keep selling. Of course, we are afraid of an accident happening, but we have no choice. The level of the river is frightening, it rose really fast,” he said.

 

On the other side of the Rio Negro, which surrounds Manaus, I arrive at Careiro da Várzea. The problems are the same, or possibly worse if we consider questions of infrastructure. The city is part of the metropolitan area of the capital and the families that live there have been punished by the floods, they are homeless and have lost the essential means of subsistence, such as agriculture, one of the main sources of income in the region.

The river dwellers of the Juma community, Abrahim Seabra, told us how the movement of the rivers resulted in the partial loss of the plantation. “Almost every year in big floods like this we lose crops, cassava and other plants like cupuaçu. We lost everything this time through the force of the waters and the rising of the rivers. The water keeps rising. We are going to have to dismantle the green plantation or we are going to go hungry if we don’t sell anything,” he said.

 

The teachings of the floods and tides is part of Amazonian life; from this knowledge emerges the poetic nature that sustains the imagination of Amazonia. The equilibrium that I experienced for just one day is part of daily life for the people of the marombas. Only the eye that is keen to their demands and needs allows us to dive into understanding these resilient Amazonian amphibians.

 

Sobre as “marombas”

A pandemia na Amazônia anfíbia

Por Marcos Colón

 

Em junho do segundo ano da nova peste biológica ou biocultural que assola a humanidade, estava cruzando as pontes de madeira da pequena comunidade amazônica de Cacau Pirêra, distrito do município de Iranduba, localizado no Amazonas, estado no norte do Brasil. Com uma câmera sem alça na mão e medo de cair a cada passo dado na maromba, passei o dia conhecendo a resiliente comunidade anfíbia, localizada a poucos quilômetros da capital Manaus. Caso você esteja se perguntando, a maromba é uma estrutura de madeira típica da região amazônica, feita pelos moradores para caminhar acima do nível da água.

O contraste do meu malabarismo nessas ‘ruas de madeira’, feitas na parca, mas efetiva maneira de manter os transeuntes secos e longe do contato com a água parada no chão, mostrava um contraponto explícito com os moradores que me receberam com sorrisos que pareciam me dizer: “vai ficar melhor, já esteve pior”. Para a comunidade de Cacau Pirêra, viver às margens do rio e experienciar todas as suas idiossincrasias é uma situação ambígua, uma condição no sentido de exclusão.

No meio disso, parece até inferno astral que, no meio de uma pandemia ainda corrente, que causou a morte de mais de 13 mil pessoas em apenas um estado, o Amazonas esteja passando pela maior cheia de sua história registrada em mais de um século de medição –119 anos, para ser mais preciso.

O problema já dura mais de duas décadas. Uma pesquisa do Instituto Igarapé, publicada em 2018, mostrou que o Amazonas é o estado do país com o maior número de pessoas deslocadas em decorrência de fenômenos naturais desde o começo do milênio.

 

Enquanto isso, a pandemia continua sem dar sinais de trégua a um povo que sofreu ainda o agravante da falta de oxigênio hospitalar. Ironicamente, a Amazônia, “pulmão do mundo”, padeceu sufocada.

O terrível impacto do vírus é ainda pior quando olhamos desde uma perspectiva nacional para o Brasil, onde o número de mortos ultrapassou 534 mil pessoas enquanto escrevo estas palavras. Grande parte dessas mortes poderiam ter sido evitadas se o país tivesse seguido minimamente a média internacional em termos e aquisição de vacinas e vacinação. Porém, o ato que alguns consideram como genocídio foi potencializado pela desastrosa gestão do governo de Jair Bolsonaro, que continua subestimando a quantidade real de vítimas ainda não contabilizadas.

Nos últimos dias, os jornais locais do Amazonas —nota-se pouco ou nenhum interesse da mídia a nível nacional— têm mostrado a intensa movimentação das águas dos rios no estado nortista. Um fenômeno natural e histórico da região, não fosse o fato de que, logo no primeiro dia do mês de junho, a capital Manaus registrou 30,04 metros de altura, a maior cheia desde o início das medições do Rio Negro em quase 120 anos.

No centro e nas periferias da chamada “Paris dos Trópicos”, onde o comércio é intenso e pulsa tanto em suas largas avenidas e estreitas vielas, as enchentes já causaram o fechamento de várias lojas, um segmento que já caminhava trôpego desde o início da pandemia do novo coronavírus.

Sem entrar no mérito do debate da mudança climática, essas cheias extremas resultam em mais problemas para a já castigada saúde pública amazônida, microcosmo peculiar no contexto brasileiro. Além disso, é comum que causem grandes impactos sociais e econômicos: perdas de infraestrutura, destruição de propriedades e de setores importantes para a comunidade local, como a agricultura e a coleta nas várzeas dos rios, entidades sinérgicas ao próprio povo que ali vive. É importante destacar que as cheias também são fruto de uma resposta conjunta da floresta à violência praticada para com ela.

 

Um novo agravamento da pandemia de covid-19 tenderia a piorar esses problemas. Estes deslocamentos forçados obrigam estas pessoas a conviver com familiares e parentes em casas com espaço reduzido, ambientes tomados pelas águas, ou ainda compartilhando hospitais, embarcações e abrigos em ginásios com outros vizinhos que também foram afetados pelas cheias. Esta situação acaba por gerar insegurança sanitária e facilita a infecção e posterior propagação de novas variantes do novo coronavírus, como já foi alertado por entidades nacionais e internacionais.

Mas há quem resista às adversidades, como é o caso do dono de um pequeno quiosque de frutas na Feira da Manaus Moderna, o senhor Edvaldo Diniz. O feirante traz em seu relato a visão de homens e mulheres acostumados a ter a vida afetada pelo rio. “Nós fizemos uma cota com os colegas pra comprar madeiras e construir tablados pra quebrar um galho e continuarmos vendendo. Claro que a gente tem medo de acontecer algum acidente, mas não temos escolha. O nível dos rios assusta, subiu muito rápido”, contou.

Na outra margem do Rio Negro, manancial que abraça Manaus, chego ao Careiro da Várzea. Os problemas são os mesmos, talvez piores se considerarmos questões infraestruturais. A cidade integra a área metropolitana da capital e as famílias que habitam na localidade, castigadas pelas enchentes, ficam desabrigadas e perdem meios essenciais de subsistência, como a agricultura, uma das principais fontes de renda da região.

O ribeirinho da comunidade do Juma, Abrahim Seabra, fala como o movimento dos rios resultou na perda parcial da plantação. “Quase todos os anos em enchentes grandes como essa nós perdemos roça, macaxeira e outras plantas como cupuaçu. Perdemos tudo dessa vez pela força das águas e subida dos rios. A água continua subindo. Vamos ter que desmanchar a plantação verde ou vamos passar fome se não vendermos nada”, afirmou.

 

A pedagogia das enchentes e vazantes é parte da vida amazônica, desses saberes emergem a poética que sustenta todo o imaginário amazônida. O equilíbrio que eu experimentei, por apenas um dia, é cotidiano para aquele povo das marombas. Somente o olhar atento às suas demandas e necessidades nos permitirá o mergulho de compreensão dessa resiliente Amazônia anfíbia.

Marcos Colón coordinates the Portuguese Program in the Department of Modern Languages of the Florida State University, in addition to being the director of the documentary “Beyond Fordlândia.” He holds a doctorate in cultural studies from the University of Wisconsin-Madison.

Marcos Colón coordena o Programa de Português no Departamento de Línguas Modernas e Linguística da Universidade Estadual da Florida e diretor do documentário “Beyond Fordlândia”. Colón é doutor em estudos culturais pela Universidade de Wisconsin-Madison.

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