A Defesa da Vida com a Floresta

Documentando a Coragem e a Ousadia pelo Cinema

Por Felipe Milanez

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José Claudio. Photo by Felipe Milanez

“A coisa mais importante é a ousadia”, Maria, defensora da Amazônia me disse.

“Se você tem coragem de lutar, então lute”, o seu marido, Zé Cláudio, enfatizou.

Quando fui visitor o casal corajoso José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva pela primeira vez, eu sabia que poderiam ser assasssinados, mas eu jamais esperava que isso fosse acontecer. 

Nesse artigo, tenho menos a intenção de descrever a minha experiência audiovisual do que refletir sobre como eu fiz uso do filme para compartilhar a história não contada de um casal de defensores ambientais da Amazonia, e como eu aprendi com Zé Cláudio e Maria um sentido mais profundo da vida — e como eles me transforaram depois de eu tê-los visto a partir das lentes de minha camera.

O dia 10 de outubro de 2010 era um lindo dia de sol da estação seca do sul da Amazônia no Brasil. No caminho vimos incêndios na floresta e em pastagens que ainda queimavam quando retornamos no fim do dia — eu me lembro de ter visto uma castanheira em chamas no meio de um pasto degradado. Eu estava investigando o desmatamento da Amazônia provocado pela produção ilegal de carvão, associada com a extração ilegal de madeira e a grilagem de terras, um tipo de cadeia de destruição. Esta investigação que realizei em campo para o Greenpeace resultou posteriormente no relatório da campanha Carvoaria Amazônia: Como a indústria de aço e ferro gusa está destruindo a floresta com a participação de governos, lançada em 2012.

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Felipe Milanez (left) and Zé Claudio

Eu já sabia que na região onde viviam Zé Claudio e Maria, o Projeto de Assentamento Agroextrativista Praialta Piranheira (PAE), muitas famílias pobres tinham que sobreviver da venda ilegal de madeira de seus lotes individuais de floresta, e da produção ilegal de carvão advinda das árvores nativas. Eles vendiam o carvão para siderúrgicas de ferro gusa localizadas em Marabá — que por sua vez vendiam o ferro produzido de árvores da Amazônia para diversas indústrias nos Estados Unidos e na Europa. Zé Cláudio e Maria, ambos de 54 anos em 2010, eram bem conhecidos na região por serem ambientalistas populares, opondo-se e denunciando crimes ambientais. Ele e ela eram reconhecidos lideranças do movimento social camponês na região, defendendo a vida sustentável com a floresta no Praialta Piranheira. O advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT), e um amigo de alguns anos, José Batista Afonso, me informou que a situação do casal era crítica e que estavam recebendo ameaças de morte, e que eu deveria tentar “fazer alguma coisa”. Nesse dia eu não estava realizando um filme, mas trabalhando como um jornalista investigativo, após editar a revista National Geographic Brazil até uns meses antes. Mas eu sabia que esse poderia ser um encontro importante e decidi levar comigo meu simples equipamento para gravar tudo o que eu pudesse, ainda que não estava planejando nada em especial. 

Passamos um grande dia juntos, uma vez que eu fui apresentado a ele e ela por um funcionário da CPT que me conduziu até a área e era uma pessoa da confiança deles e vinha prestando assistência nos últimos anos. Tomamos um maravilhoso suco de cupuaçu de uma fruta coletada por Zé Cláudio e preparado por Maria para o café da manhã. Depois disso, Zé Cláudio e eu nos preparamos para a primeira entrevista enquanto Maria cozinhava o almoço —  eu me lembro que ela usou um óleo de castanha caseiro e farinha de castanha e a sobremesa foi um crème de cupuaçu com farinha de castanha, tudo absolutamente delicioso. Eu conduzi algumas entrevistas, a maioria delas filmada, em um total de 3 horas e 40 minutos de material bruto. Foi um dia prazeroso, enquanto eles me mostravam diversas coisas que eles gostavam na casa deles e de suas vidas, as partes da floresta que amavam, como a maravilhosa castanheira que Zé Cláudio chamava de Majestade. Quando eu pedi a ele para abrir seus braços para mostrar como a árvore era grande, de repente eu me dei conta que estava diante de uma imagem poderosa que poderia revelar o seu trabalho como defensor da floresta. 

Com Maria eu fiz a última entrevista do dia, apenas por uma hora, no fim do dia e logo antes de partirmos. Nos todos sabíamos que seria difícil, que ela iria dizer tudo o que deveria ser dito, sem suavizar em nada. A entrevista foi intensa: ela chorou, eu chorei, todo mundo chorou, Zé Cláudio e nosso amigo da CPT, e eu tive que interrompê-la porque poderia ser perigoso dirigir à noite, e ela sabia disso. 

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Fizemos planos para eu retornar em seguida e eu acreditei que iria visita-los de novo. Depois de tudo, nos tornamos bons amigos em um bonito dia na floresta, a qual Zé Cláudio me convidou para revisitá-los e aprender mais. 

Mas depois da entrevista com Maria, a realidade nos prendeu e eu tive uma sensação muito ruim que tenho quando estou em lugares perigosos — um sentimento que voltei a ter diversas vezes depois dessa.  No fim do dia, já podíamos ter confiança um no outro e sabíamos que havia pessoas que estavam tentando matá-los, e eu estava lá para tentar trazer atenção para essa situação. Ela me disse que na entrevista tinha tudo o que ela queria dizer, e que isso deveria ser levado para a televisão. Apesar da nossa relação de confiança, eu estava com medo de dizer a ela que eu não tinha contatos com nenhum canal, que eu era apenas um jornalista freelancer trabalhando em uma investigação, e que seria difícil para mim conseguir fazer isso, mas eu não disse nada. Eu apenas disse a ela que eu iria fazer tudo o que eu pudesse fazer para compartilhar o que ela me disse, as ameaças a suas vidas e o amor dele e dela pela floresta, e que eu queria muito por eles e que eles poderiam contar comigo para tudo. Eu me tornei parte do seu grupo de aliados. A primeira coisa que eu fiz foi convida-los para participar da conferência TEDxAmazonia a qual eu fazia parte. E deu certo, e algumas semanas depois o Zé Cláudio veio para Manaus, capital do Amazonas, aonde a conferência aconteceu. Em apenas nove minutos, sua fala chocou e tomou a atenção das pessoas, e posteriormente tornou-se uma poderosa denuncia póstuma da violência contra os defensores da floresta: “vivo da floresta, protejo ela de todo o jeito. Por isso eu vivo com uma bala na cabeça a qualquer hora. Porque eu vou para cima, eu denuncio os madeireiros, eu denuncio os carvoeiros, e por isso eles acham que eu não posso existir.”

 Eu estive com Zé Cláudio novamente na sua extraordinária fala no TEDxAmazonia — fiz uma fala sobre o genocídio do povo indígena Kawahib / Piripkura. E liguei para eles diversas vezes por telefone, e Maria e eu choramos na última vez que nos falamos. Zé Cláudio e Maria foram assassinados apenas seis meses depois de nosso primeiro encontro, numa manhã fria e chuvosa, no dia 24 de maio de 2011. O fazendeiro José Rodrigues Moreira, que estava tentando comprar ilegalmente lotes de terra dentro da área protegida do PAE e foi denunciado por Zé Cláudio e Maria, contratou dois pistoleiros, um deles seu violento irmão Lindonjonson Silva Rocha, que trabalhou junto de Alberto Lopes do Nascimento. Escondidos em uma ponte precária que Zé Cláudio e Maria tiveram que cruzar muito lentamente em sua moto, eles emboscaram o casal e atiraram a queima roupa com uma espingarda de caça. Os pistoleiros tiraram seus corpos da estrada, retiraram o capacete de Zé Cláudio e cortaram sua orelha como prova que eles cumpriram o assassinato. O corpo de Zé Cláudio foi abandonado ao lado de um Cajuaçu (Anacardium giganteum), enquanto o de Maria ficou estirado ao lado de uma árvore de andiroba (Carapa guianensis). As duas árvores ainda estão lá, e Laisa Sampaio, irmã de Maria, sempre me lembra quando passamos pela área. Maria amava Andiroba, a Laisa me contou uma vez, cuja arvore ela recolhia os frutos para extrair o óleo. 

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Fora madeireiros (Out loggers)

No meu último telefonema com Zé Cláudio e Maria, eu havia oferecido matérias para a imprensa sobre o caso e dois artigos haviam sido negados, mas eu publiquei uma curta entrevista para o site Vice e um artigo pessoal em uma revista web chamada Terramagazine — essas duas histórias ajudaram a chamar a atenção para o seu assassinato, e a entrevista na Vice foi lida no Congresso Nacional. Eu quase retornei com um cineasta amigo que eu estava tentando convence-lo para me ajudar a fazer um filme sobre Zé Cláudio e Maria no mês de fevereiro de 2011, mas ele achou que a história não estava relacionada com um filme que ele estava fazendo sobre um outro conflito na região. Então aconteceu que meus amigos foram mortos. Eu tinha as suas vozes, suas imagens, suas expressões, e isso iria servir para lutar por justiça frente a esse crime horrível.

Eu escrevi muitas vezes sobre os assassinatos de Zé Cláudio e Maria — para diversas revistas, jornais, sites, artigos de pesquisa e uma tese de doutorado sobre suas ideias e sua luta. Mas nada se compara ao poder de suas descrições calmas, suas vozes doces e os tons irônicos de voz, de como eles aprenderam a viver com a floresta. Zé Cláudio me mostrando a Majestade, a linda castanheira. Ou os dois me falando como eles analisavam os conflitos e as contradições da sociedade brasileira, a escravidãoo moderna e o desmatamento. E como, olhando para a câmera, algumas vezes fora de foco, eles sabiam que poderiam ser assassinados, mas o seu medo não iria impedí-los de lutar contra a injustiça.

 

A câmera como o olhar público

Quando eu os filmei, construímos uma rara confiança. Eu estava muito interessado em tudo o que estavam dizendo, e podia expressar isso em meus gestos e meu olhar. Eu sempre amei ouvir histórias. Mas como eu estava filmando eu também sabia que eu não seria o único para quem eles estavam falando. Então de alguma forma, eles se concentraram mais em me contar coisas que deveriam ser ditas. Eu me tornei uma ponte para alcançar uma audiência, uma posição muito importante que eu tentei construir — uma vez que eu não estava lá para estudar suas vidas, mas para lutar com eles. Maria era crítica de acadêmicos que iam lá apenas pelo seu conhecimento, e ela percebeu que isso poderia ser diferente com a minha posição como jornalista que iria espalhar sua voz.  

O seu assassinato foi traumático para mim, e após isso eu passei a tentar usar a minha câmera contra a opressão. Minha conta no Twitter, onde eu primeiro denunciei suas mortes, tornou.se desde então um lugar aonde eu grito contra a injustiça. Nos meses que seguiram suas mortes, eu investiguei o caso de forma aprofundada até que o fazendeiro que encomendou os crimes e os dois pistoleiros fossem presos — o fazendeiro e seu irmão pistoleiro fugiram. Eu retornei com a Vice para fazer meu primeiro documentário, e entreguei todo o material que eu tinha para Bernardo Loyola, o co-diretor — eu não tinha condições de assistir tanto por questões técnicas quanto emocionais. Quando o filme Toxic: Amazônia foi lançado, ele era muito mais poderoso do que eu imaginava. Eu me vi fazendo o tipo de filme que seguia os passos de Adrian Cowell, a minha grande inspiração, como o que ele fez sobre Chico Mendes e o documentário Matando Por Terras. Meu amigo Adrian morreu algumas semanas antes de Toxic: Amazon ser lançado, mas a inspiração no seu trabalho está lá. De repente, um filme como a série A Década da destruição poderia ser feito novamente, e isso era muito triste. Quero dizer que estávamos novamente enfrentando tempos terríveis na Amazônia, como durante a ditadura nos anos 70 e 80.

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Kayapo

O Genocídio Guarani

Nos meses que seguiram o assassinato de Zé Cláudio e Maria e o lançamento de Toxic: Amazonia, eu decidi lutar contra todas ameaças de morte e assassinatos de ativistas ambientais. Eu fui para o Mato Grosso do Sul três dias depois que Nisio Gomes, xamã e liderança do povo Guarani Kaiowá, foi assassinado. Eu tinha um bom relacionamento com algumas lideranças, Tonico Benites, que eu conhecia desde o tempo em que trabalhei na Fundação Nacional do Índio (Funai). Então acompanhei um encontro de lideranças, Aty Guassu, e entrevistei todos eles para entender o que estava acontecendo. A resposta deles era: genocídio. Todos e todas estavam recebendo ameaças de morte de fazendeiros, e um me disse: “não vamos desistir de viver, vamos continuar a existir”.  

Entreguei todo o material filmado para o mesmo editor de Toxic: Amazônia, Paulo Padilha, que editou o filme A Luta Guarani. Era para ter sido publicado online por uma revista brasileira, mas eles perderam interesse história sem nenhuma explicação, então decidimos publicar em um website Word Press chamado A Luta Guarani e no YouTube. Acreditava que era mais importante amplificar a voz desses e dessas que estavam sendo assassinados que apresentar uma produção oficial, ainda que não estávamos sendo pagos. 

Eu queria filmar, documentar e denunciar a brutalidade dos fazendeiros brasileiros, madeireiros e grileiros de terra matando pessoas que posteriormente passaram a ser chamadas de “defensores ambientais”. O genocídio dos Kaiowá e Guarani é um dos piores crimes sendo cometidos no Brasil nos últimos anos. 

Filmar se tornou uma guerra anti-conquista e uma arma contra-colonial para mim. Eu apenas tinha que ouvir histórias, gravá-las e ter colegas que compartilhavam a mesma ideologia, como Padilha, para falar para as pessoas do Brasil e no exterior que precisamos mudar a sociedade. 

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Castanha

Vidas em risco

Por muitos, filmar tornou-se algo perigoso para mim: eu poderia gravar uma história nunca contada que em breve poderia estar apenas em meus arquivos. Isso aconteceu quando eu viajei com outro diretor de cinema (quem decidiu não filmar Zé Cláudio e Maria) para outro assentamento na Amazônia, aonde a irmã Dorothy Stang foi assassinada em 2005. Acompanhamos uma operação na floresta junto dos assentados para investigar a atuação ilegal de madeireiros. Posteriormente descobri que três deles vieram a ser assassinado. Em 2012, alguns meses após Toxic: Amazônia ser lançado, eu fui junto com uma equipe para filmar a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte na cidade de Altamira, aonde gravamos muitas histórias tristes. Uma das pessoas que entrevistamos foi José Carlos, o líder do povo Arara cujo território estava ameaçado pela represa. Ele morreu recentemente de Covid-19. 

A vida mudou para mim depois da experiência de filmar Zé Cláudio e Maria. Não é que eu me tornei mais ou menos engajado na luta por justiça, ou mais politizado, mas a vida se tornou mais urgente. Eu aprendi que a vida é curta, e que a forma como nós conduzimos nossas vidas importa. Zé Cláudio e Maria tornaram-se vozes no meu inconsciente eu escuto de vez em quando. Algumas conversas reverberam na minha cabeça, como esta: 

A minha companheira ai tem problema psicológico, por causa disso, das ameaças. Por causa de tantas coisas que a gente já passou junto aqui. E, é barra, viu. Mas a gente, faz, como dizer, a gente tem uma bandeira de luta. A gente tem uma obrigação como cidadão. Eu jamais vou ver uma injustiça e ficar de boca calada, eu não fico. De jeito nenhum. Nem que, para isso, isso custe a minha vida. Mas eu não fico calado. Enquanto eu tiver fôlego de vida e viver aqui dentro, eu combato as injustiças. Seja pela depredação do meio ambiente, seja por apropriação da terra, que ninguém tem direito a ter a terra só si. A terra tem que ser distribuída para todos.

Zé Cláudio se referia ao custo de viver em luta contra a injustiça. E ele não tinha medo: isso significava que ele poderia lidar com o medo e controlar o medo, mantendo os sonhos em uma alta posição de importância em sua vida:

Felipe Milanez: E o senhor não tem medo?

José Cláudio Ribeiro da Silva: Tenho. Se eu disser que eu não tenho medo, eu tô mentindo, né. Porque o todo poderoso sabia que ia morrer, mas ele ia voltar no terceiro dia e ele teve medo. Por que que eu não vou ter medo? Que a vida é muito boa, né meu amigo [risada]. Tenho medo, mas… [menciona João Canuto] Eu tenho medo mas, no mesmo instante que eu tenho medo, além de eu ter a minha obrigação como cidadão, o impulso que eu tenho quando eu vejo uma injustiça, me tira o medo. Me faz com que eu tenha coragem de lutar. Porque, o homem é o que ele é. Então, se você tem coragem de lutar, lute. Porque mais antes você morrer tentando, do que morrer omisso.

Uma das questões que eu perguntei a Maria era sobre seus sonhos. E hoje sou feliz por ter feito. Eu aprendi e ainda aprendo com sua resposta. Maria sabia que poderia ser assassinada então ela sabia da importância de registrar o que estava dizendo — ela me falou que queria escrever um livro mas, se ela fosse assassinada antes que terminasse, ela iria deixar seus escritos para ser recolhidos por alguém. Inspirado nessa mensagem eu estou organizando o seu livro junto com sua irmã Laisa, sua cunhada Claudelice Santos, e José Batista Afonso, o advogado da CPT que nos apresentou. Eu queria ouvi-los tanto, e acredito que nós ainda temos muito a aprender com a experiência dos defensores da floresta na Amazônia, não apenas pelo destino da floresta, mas de todos os povos desse planeta. 

Felipe Milanez: Qual é o sonho da senhora aqui?

Maria do Espírito Santo: Meu sonho, hoje, eu não posso dizer mais que é um sonho individual. Porque antes era um sonho coletivo de ver essa floresta, esses 22 mil hectares, essas quase 400 famílias que hoje moram aqui, todo mundo agregando valor em sua renda com o extrativismo. Esse que era o sonho.

Felipe Milanez: Vivendo com a floresta?

Maria do Espírito Santo: Convivendo com a floresta de forma sustentável, ecologicamente sustentável e viável e justa, né. Porém, esse era um sonho que já virou utopia mesmo. Mas aqui no meu lote mesmo, nessa parcela de terra que eu chamo de meu, a gente acostumou falar que é meu mas a terra é da União e eu só tenho obrigação de cuidar dela, procurar viver da maneira melhor possível com ela, e podemos mostrar para a sociedade que é possível se viver com os recursos da floresta de maneira sustentável. Não temos dúvidas disso. De forma alguma.

Minhas últimas palavras para Maria que foram gravadas na entrevista foram, “esse é o início de nossa conversa”. E Maria respondeu, “Ok, estamos aqui, Felipe” — como se fossem estar à disposição para outras visitas que nunca aconteceram. Estávamos sentados na varanda de sua casa, e o sol estava se ponto em um por-do-sol colorido. Eu queria fazer uma foto deles com essa linda luz para mostrar o seu amor no seu lindo jardim.

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Essas últimas palavras tem a sombra de um lindo por-do-sol para mim, um brilho amarelo com laranja em um fundo escuro do verde da floresta. Como eu filmei essa cena, me lembro não apenas das palavras, mas de todo o cenário e os diferentes cheiros, então filmar reforçou minha memória e hoje sou feliz por ter filmado aquele dia. “Nós estamos aqui”, também me lembra o doce cheiro da farinha de castanha e o suco de cupuaçu, e quando a minha cabeça cai de tristeza e saudade, eu posso ver no chão o tapete feito das flores rosas de jambo. A utopia dele e dela de conviver com a floresta, de reaprender como compartilhar esse planeta com a natureza e outras vidas humanas e não-humanas, tornou-se uma necessidade urgente para toda a sociedade humana. 

 

Felipe Milanez é Professor Adjunto do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências, da Universidade Federal da Bahia, Brasil.