A "gripezinha" de Jair Bolsonaro

Por Elio Gaspari

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Em dezembro de 1849 passavam pelo litoral brasileiro navios americanos vindos da Califórnia e o médico da enfermaria de estrangeiros da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro suspeitou que estava diante de casos de febre amarela. Visitou tavernas frequentadas pelos marinheiros e informou à Academia Imperial de Medicina que uma epidemia poderia chegar ao país. Os acadêmicos disseram que sua suspeita não era científica.

Em fevereiro de 1850 a febre tinha atingido uma parte da cidade e em abril, o senador Bernardo Pereira de Vasconcelos, líder dos conservadores, foi à tribuna e disse: "Eu também estou persuadido de que se tem apoderado da população do Rio de Janeiro um terror demasiado, que a epidemia não é tão danosa como se têm persuadido muitos; não é a febre amarela a que reina.” 

Seis dias depois, Vasconcelos morreu, de febre amarela.

O negacionismo e as atitudes anti-científicas não foram coisa do século XIX, nem típica do Brasil, mas no Rio de Janeiro de 1904 deu-se o maior levante popular da história da cidade. É conhecido como a "Revolta da Vacina" e por pouco quase derrubou o governo. Juntaram-se preconceitos contra a vacina obrigatória contra a varíola, oportunismo de políticos, de jornalistas, e a insatisfação de alguns militares. A revolta seria uma pretexto para um levante contra o presidente Rodrigues Alves. Sua inflexibilidade,  recusando-se a tirar a família do palácio e mandando atirar contra os sediciosos, salvaram o governo.

No século XXI, diante da Covid-19, repareceram alguns dos fantasmas de epidemias passadas. Como Bernardo Pereira de Vasconcelos, o presidente Jair Bolsonaro viu exagero na preocupação com a chegada do coronavírus. Na segunda semana de março, quando já havia sido registrados pelo menos cinco casos de Covid-19 e Harvard já havia cancelado um evento com a participação de brasileiros, entre eles um ministro do Supremo Tribunal Federal, ele disse que "outras gripes mataram mais que essa":  "A questão do coronavírus  não é isso tudo que a grande mídia propala ou propaga pelo mundo todo". Ou ainda: "Não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar""

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Uso de Máscara agora é obrigatório no Transporte Público. Foto por Felipe Barros/ExLibris/PM

 (Este artigo está foi escrito no dia 21 de junho, quando o Brasil já registrou mais de um milhão de casos de contágio e de 50 mil mortes".)

Bolsonaro escalou sua atitude negacionista. Foi aos Estados Unidos e voltou com 24 pessoas infectadas em sua comitiva, inclusive dois ministros. "Histeria", "fantasia" ou mesmo "neurose". Ela embutia uma preocupação pessoal que atravessa todo o período. Em parte ela era explicável, pois no Brasil como em todos os países do mundo a oposição tirava partido das dificuldades trazidas pela epidemia: "Não dá para querer jogar nas minhas costas uma possível disseminação do vírus." De fato, não dava, mas o negacionismo levou-o a combater o isolamento social, acusando os governadores que o haviam imposto de serem "exterminadores de empregos". O governador de São Paulo seria um "lunático".

(Uma decisão do Supremo Tribunal Federal reconheceu a legalidade das quarentenas impostas pelos governos estaduais.)

Nessa altura (15 de março) o presidente expôs a real base utilitária de seu negacionismo: "Se a economia afundar, afunda o Brasil. E qual o interesse dessas lideranças política? Se acabar economia, acaba qualquer governo. Acaba o meu governo. É uma luta de poder."

Ao contrario de D. Pedro II, que visitava instituições com pacientes de febre amarela e solera, para preocupação de sua amiga, a Condessa de Barral, Bolsonaro só visitou o primeiro hospital em junho, para ser inaugurado, quando ainda estava vazio.

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Coletiva sobre Coronavírus. Foto por Paulo H. Carvalho / Agência Brasília

No dia 19 de março morreu no Rio de Janeiro uma empregada doméstica que vivia num subúrbio da cidade e trabalhava na casa de uma família do melhor bairro mais caro da cidade. Havia sido contaminada pela patroa, que voltara da Itália. (Como o vírus disseminou-se a partir de pessoas que voltaram do exterior, houve quem lhe desse o nome de "coronarrico"")

Bolsonaro lutou pelo poder. É impossível saber como esse tipo de combate pode ser útil durante uma epidemia, daí o fato de serem inexplicáveis seus atos seguintes.

Em abril, quando os mortos eram 474, irritou-se: "E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre​. Seu nome completo é Jair Messias Bolsonaro.

O presidente persistiu na oposição à quarentena e tornou-se um propagandista da cloroquina. Tinha um ministro da Saúde que havia chegado ao cargo depois de uma vida parlamentar inexpressiva, mas era médico e conhecia seu ofício. Com longas entrevistas diárias tornou-se uma figura popular num governo de prestígio declinante. Luis Henrique Mandetta cometeu dois pecados: defendeu o isolamento e sempre mencionou as limitações e os riscos da cloroquina. Foi demitido em meados de abril, quando os mortos eram 1.952 e os infectados, 30.891.

Para seu lugar foi um outro médico, recrutado entre os simpatizantes de Bolsonaro. Registre-se  que em sua campanha eleitoral de 2018, o presidente teve expressivo apoio da classe médica, sobretudo daqueles que trabalham na rede privada. Esse poio parece ter desaparecido. 

O médico Nelson Teich ficou exatamente um mês no cargo. Foi dispensado porque não se alinhou à defesa da cloroquina. Sua breve gestão foi marcada pela militarização do ministério. Aceitou que no segundo cargo da administração ficasse um general da arma da Intendência. Interino, ele  está lá até hoje, companhado por 20 outros oficiais. Sua administração ganhou notoriedade por duas providências: suspendeu as entrevistas diárias inauguradas por Mandetta e alterou o sistema de divulgação das estatísticas de mortos e dos casos de contágio.

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Moradores de Águas Claras enfrentam filas enormes para teste do Covid-19 no estacionamento do Centro Universitário Euroamericano (Unieuro). Foto por Leopoldo Silva/Agência Senado

A mágica com os números durou um só dia. Os principais meios de comunicação do país formaram um consórcio que recolhe diariamente os dados fornecidos pelas secretarias estaduais e no início da noite divulga os números consolidados. Ninguém sente falta das estatísticas do Ministério da Saúde.

Pode-se imaginar que num país com um presidente negacionista, três ministros da Saúde durante uma epidemia e mais 50 mil mortos, tudo deu errado. Felizmente, não é bem assim. O Brasil tem um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, com cerca de 200 mil profissionais, e a ele se deve o pouco que já aconteceu de bom. A rede entrou em colapso em muitos Estados, mas milhões de pessoas conseguiram cura, graças a pessoas que quase sempre trabalham em condições precárias. Estima-se que 32 mil profissionais já foram infectados. No dia em que se atingiu a marca dos 50 mil mortos na população, tornando-se o segundo país do mundo com mais vítimas, atrás dos Estados Unidos, o Brasil era o primeiro nas mortes de médicos e enfermeiros: 229. Em Brasília, enfermeiras que se manifestavam perto do palácio presidencial, pedindo condições seguras de trabalho, foram hostilizadas por milicianos do bolsonarismo.  No Rio, em manifestação semelhante, a polícia deteve dez profissionais. Nesse dia a cidade tinha 33.589 casos de Covid-19, com 3.657 mortes.

Epidemias trazem à tona problemas  que em épocas normais escondem-se nos labirintos das burocracias. Nesse aspecto, a Covid-19 revelou as debilidades federais, estaduais e municipais do Brasil. Com a chegada do coronavírus, o Estado brasileiro, tentou mostrar-se prestimoso e atento. Em alguns casos, deu-se pura parolagem. O ministro da Economia, Paulo Guedes, revelou que um amigo inglês se dispunha a oferecer 40 milhões de testes mensais para detectar a presença do vírus. Até hoje não apareceram o amigo, nem os testes. 

Em outros, agravou-se a ruína. Mostrando-se prestimosos, governos estaduais fizeram compras e assinaram contratos valendo-se de normas emergenciais. Disso resultaram roubalheiras no em pelo menos cinco Estados. Em São Paulo, o empresário Zheng Xiao Yun (Marcos Zheng), presidente de uma Associação de Shangai no Brasil, foi preso e é acusado de ter furtado uma carga de 15 mil testes de Covid-19,

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Pesquisadores da rede pública de saúde do Distrito Federal se uniram para entender melhor o desenvolvimento e evolução do coronavírus, causador da Covid-19, em pacientes. Foto por Acácio Pinheiro/Agência Brasília

Pagou-se por respiradores que não vieram e, quando vieram, não eram adequados para pacientes de Covid-19. O Rio de Janeiro já teve cinco ex-governadores presos por corrupção. Um deles, Sérgio Cabral foi condenado 13 vezes e está na penitenciária, condenado a penas que chegam a 282 anos. Em 2018 foi eleito um ex-juiz que se apresentava como campeão da moralidade. Durante a epidemia ele contratou emergencialmente a construção de sete hospitais de campanha. Os escândalos explodiram antes que qualquer um deles fosse inaugurado. Entre os espertalhões envolvidos nessas contratações estava pelo menos uma pessoa que vendia serviços aos governos de Cabral.

A pandemia, com seus reflexos internos e externos custará ao Brasil uma contração de cerca de 10% na sua economia. As pressões de empresários, bem como as de comerciantes que poderão falir se a quarentenas não for atenuada, somaram-se ao negacionismo de Bolsonaro. Brasileiros que precisam trabalhar estão nas ruas arriscando-se e há epidemiologistas preocupados com uma nova onda de contágio.  Com 50 mil mortos, o país ainda não teria atingido o pico da epidemia e, pela sua dimensão, a doença ainda está se espalhando pelo interior.

Durante a pandemia da AIDS estava na Harvard Medical School o professor Dieter Koch-Weser (1906-2015). Sua vida foi marcada pelos sobressaltos do século XX. Ele nasceu na Alemanha, seu pai foi ministro na República de Weimar e, com a ascensão de Hitler, juntou-se a um grupo que resolveu emigrar. Foram para as matas do Paraná e fundaram uma comunidade em Rolândia. Jovem, formou-se em medicina na Universidade de São Paulo. anos depois foi para os Estados Unidos. Dedicou-se à saúde pública e viu o surgimento do Sistema Único de Saúde do Brasil. 

Ele poderia ter contado muito melhor o que está acontecendo no país durante a epidemia da  Covid-19-19. 

 


Elio Gaspari é jornalista brasileiro e 2004-2005 DRCLAS Lehman Visiting Fellow.