The Nature of the Tropical Nature: Brazil Through the Eyes of William James (en Portugués)

 

por M.H. Machado

A nós, brasileiros, nenhuma declaração pode soar mais óbvia do que aquela que nos assegura que o Brasil é um país privilegiado em termos da natureza, que suas praias são lindas, que suas florestas tropicais encantadoras, que seus rios majestáticos, suas paisagens magníficas. Desde a mais tenra infância somos treinados a identificar nosso país por meio de exclamações entusiásticas sobre as maravilhas da nossa geografia, isto sem falar da flora e da fauna, cuja variedade e riqueza são, nada mais nada menos, do que tesouros que ganhamos gratuitamente de Deus (isto, claro, quando todos os outros povos estão por ai trabalhando para amealhar as próprias riquezas). A própria carta inspirada de Pero Vaz de Caminha – o primeiro cronista a dar notícias ao Rei de Portugal do achamento das terras novas mais tarde denominadas de brasis – e que se deleitou em descrevê-las em traços edênicos, nelas sublinhando especialmente a presença de inocentes adões e evas nús e amigáveis, ao brindar a nova terra com uma peça de boa literatura e muito encantamento, parecia estar nos destinando a sermos natureza. E só natureza.

Este destino precocemente anunciado nas “visões do paraíso” dos primeiros séculos veio a se confirmar plenamente na literatura de viagem do século XIX. De fato, os relatos de viagem do XIX, ora sublinhando a la Humboldt os aspectos românticos idealistas da paisagem americana, ora voltando-se para o empreendimento científico-classificatório dos naturalistas, a la Martius ou Agassiz no Brasil, ora ainda explorando o pitoresco das descrições dos costumes e relações sociais dos nativos, como o fizeram uns tantos viajantes-aventureiros-comerciantes, se dedicaram a reencenar a descoberta das novas terras, reinventando o espanto original dos velhos cronistas frente à visão do suposto paraíso terreal. Assim, se desde o início já havíamos sido fadados ao mundo natural, o século XIX realizou o mais plenamente possível o nosso destino anunciado. Descritos pelos nossos macacos-mãos-de-ouro, mico-saguis, bichos-preguiça, peixes-boi e outras maravilhas do mundo animal, na qual não faltavam o selvagem despido, todos alocados na natureza atemporalizada de florestas e rios tropicais, o Brasil da época aparecia nesta literatura definitivamente classificado fora do mundo social. De forma que como estudiosa dos relatos de viagem escritos sobre o Brasil do século XIX sou quase compelida a me solidarizar com todos aqueles - por sinal, poucos e raros escritores iluminados– que, de uma maneira ou de outra, discordaram do tom geral, ajudando a tornar nossa prisão-natureza menos panóptica. Não posso deixar de me solidarizar, por exemplo, com uma passagem do grande Machado de Assis, escritor de romances realistas e crítico dos nossos costumes sociais que, em 1893, expressava sua angústia frente à coisificação da qual éramos objetos um tanto quanto voluntários, declarando: “O meu coração nativista, ou como quer que lhe chamem, sempre se doeu desta adoração da natureza.” E continuava ele sua crônica semanal, no costumeiro tom mordaz e contido, o qual deixava entrever seu desgosto quanto a nossa reificação enquanto natureza tropical, relatando a visita que fizera ao Morro do Castelo, na cidade do Rio de Janeiro, com objetivo de mostrar a um visitante estrangeiro os altares da igreja local: “Sei que não são ruinas de Atenas; mas cada um mostra o que possui. O viajante entrou, deu uma volta, saiu e foi postar-se junto à muralha, fitando o mar, o céu e as montanhas, e, ao cabo de cinco minutos: “Que natureza que vocês têm!”... A admiração de nosso hóspede excuíia qualquer idéia de ação humana. Não me perguntou pela fundação das fortalezas, nem pelo nome dos navios ancorados. Foi só a natureza”.

E o que tem isso a ver com a viagem que William James fez ao Brasil entre 1865-66, acompanhando a Expedição Thayer, liderada pelo então diretor do Museum of Comparative Zoology e professor dileto da Lawrence School da Harvard, o notável Louis Agassiz? Bem, desde a primeira vez que passei os olhos pelos papés escritos no Brasil por James, então um jovem de apenas 23 anos de idade, senti que ali palpitava um espírito original, alguém que, apesar de estar inserido numa viagem naturalista, organizada segundo os padrões já bem analisados – isto é, como produtora de entendimento racionalizador, extrativo e dissociativo, que suprimia as relações funcionais e experenciais entre as pessoas, plantas e animais, consolidando um paradigma descritivo e uma apropriação do planeta aparentemente benigna e totalmente abstrata, produzindo uma visão utópica e inocente da autoridade mundial européia e masculina. (Mary Pratt, Imperial Eyes) – se colocava numa posição de independência intelectual. Contrariamente do que se espera de alguém que se engajara numa expedição de coleta de peixes e materiais geológicos na condição de assistente e coletor voluntário, James, em seus oito meses de estadia no Brasil, passadas principalmente no Rio de Janeiro e na Amazônia, garatujou cartas enderçadas a seus familiares, redigiu uma curta narrativa de viagem ao Rio Solimões (esta incompleta), rascunhou um diário e produziu desenhos de qualidade desigual de cenas e figuras da expedição, que expressam uma consciência crítica e um distanciamento moral do empreendimento intelectual colonialista que norteava a expedição. E é por isso que, embora muito bem conhecidos por todos os estudiosos da figura carismática de William James, que já os esmiuçaram amplamente, sempre do ponto de vista da formação intelectual de James, de sua geração e da formação da Harvard University – como Ralph Barton Perry, Gerald Myers, Howard Feinstein, Kim Towsend, Louis Menand, Paul Jermoe Croce, Daniel Bjork entre muitos outros - os registros brasileiros de James ainda merecem um tratamento que os insira no quadro da literatura de viagem naturalista do XIX, distinguindo-os por sua especial empatia na análise do ambiente tropical e das populações não-brancas que o habitavam. Além disso, acredito que uma análise informada por esta perspectivas pode oferecer novas vertentes da própria biografia do fundador do Pragmatismo.

Claro, que os papéis brasileiros de James não são sempre, digamos assim, iluminados por uma aproximação empática e relativista. Neles James expressou muitos sentimentos e emoções, como sua ambivalência com relação ao próprio sentido da viagem, narrou seus momentos de tédio e dúvida, sua vontade de ir o mais rápido possível para casa, seu mal humor com relação a morosidade e preguiça dos nativos, tal como se poderia esperar de um jovem que, engajando-se numa viagem de tal envergadura, que pretendia percorrer áreas poucos conhecidas da América do Sul, se separa, pela primeira vez, de uma família absorvente, colocando-se sob os desígnios de um Agassiz, capaz de decisões erráticas e intempestivas, e que, além do mais, mudava o roteiro da viagem ao sabor dos acontecimentos, matendo seus dependentes sempre na expectativa de suas ordens. Arescente-se a isso o episódio da chickenpox sofrida por James, logo nos seus primeiros meses de estadia no Rio de Janeiro e cujas consequências poderiam ter sido ainda mais funestas e que o indispôs , compreensivelmente, por mêses, contra a viagem e tudo que a cercava. (Por sinal, lendo os registros do episódio da doença de James, acredito que ele realmente tenha tido catapora e não, como supôs Agassiz, varicela, que é um tipo de doença mais benigno). O fato de que James tenha recebido tão pouca atenção dos Agassiz, que não deixaram de visitar fazendas em paragens distantes e quase inacessíveis enquanto um de seus estudantes passava por riscos de vida consideráveis, pode explicar o motivo deste julgamento. Em outros momentos, James simplesmente sucumbiu à exotização, como, por exemplo, na sua muito citada carta a Henry James, endereçada do “Original Seat of Garden of Eden” (July 15th 1865. Houghton Archives), e na qual ele lança mão de imagens derivadas de todo um repertório padrão de descrição da natureza tropical. Segundo ele, por exemplo, apenas “savage inarticulate cries” poderiam expressar as maravilhas do landscape, recoberto de “bewildering profusion & confusion of the vegetation”, and “the inexhaustible variety of its forms & tints”. Estas e outras exclamações hiperbólicas utilizada por James convidam o leitor a imaginar um landscape selvagem e misterioso, bem em consonância com o que, no hemisfério norte, se convencionou caracterizar o ambiente dos trópicos. E assim o fizeram os biógrafos de James, que amplamente citaram e analisaram esta missiva como representativa de um tipo de experiência, intelectual e emocional, evocada pelo mundo luxuriante e liberador das selvas tropicais. Embora o próprio James não tenha localizado o local exato da excursão, é fácil determinar que esta havia se dado na Tijuca, paragem distante apenas algumas milhas da cidade do Rio de Janeiro (não 20 milhas, como supôs James, mas 8, como determinou acertadamente os Agassiz) local aprazível, no qual as altas classes do Rio de Jameiro costumavam dirigir-se nos finais de semana para fazer pequenas excursões de recreio e picnics. Além disso, a excursão liderada por Agassiz, pernoitou no local, hospedando-se no Hotel Bennet, de propriedade de um inglês, que possuía instalações bastante modernas e aprazíveis. Não que a Tijuca não seja linda, é esta ainda hoje, apesar dos condomínios de luxo e shopping malls que hoje povoam este bairro de classe média do Rio de Janeiro, um local de extraordinária beleza. No entanto, muito longe estava a Tijuca de proporcionar uma experiência de selva tropical, como, de fato, James  teria em sua estadia nos mêses seguintes na Amazônia. Do ponto de vista dos cariocas a excursão à Tijuca não passava de um passeio bem educado de final de semana, similar a uma excursão que faziam os bostonians to the shores of Walden Pond nos dias de verão!

No entanto, quando se espera que James seja convencional e que repita o que dele se espera, isto é loas ao exotismo dos nativos e odes a uma natureza misteriosa, atemporal e associal, na qual o viajante presentindo os riscos de uma experiência interna de liberação insonsciente, estabelece um seguro distanciamento emocional do ambiente, ele arrisca e se mostra tanto particularmente persipcaz na demolição do mito da natureza tropical quanto capaz de empatizar com o que vê, sobretudo com as populações nativas. E não mais que de repente somos convidados a descobrir que o Rio de Janeiro é uma cidade que relembra Paris Letter *), que a Amazônia é relativamente civilizada (*), que o ambiente tropical, ao fim e ao cabo, não é assim tão misterioso, mas sim as vezes meio tedioso e repetitivo (*). James se excede, sobretudo, quando quando se mostra capaz de empatizar com os moradores locais, guias, pescadores e outros, índios, negors e mestiços que acompanharam suas excursões de coleta, muitas vezes como suas únicas companhias. Em uma de minhas passagens prediletas, James, obviamente em dia de grande inspiração, observando a conversação dos seus barqueiros com um grupo de mulheres indígenas ou mestiças que pilotavam uma montaria rio abaixo, em algum ponto do Rio Solimões, se pergunta: I marvelled, as I always do, at the quiet urbane polite tone of the conversation between my friends and the old lady. Is it race or is it circumstance that makes these

people so refined and well bred? No gentleman of Europe has better manners and yet these are peasants. (William James Diary 1865-1866, A.Ms.s., 1865, 4498, Houghton Archives). Estas e outras passagens iluminadas que ficaram gravadas em páginas redigidas em tom familiar e descompromissado mostram o jovem James enfrentando, de maneira informal, o famigerado conceito de raça e ainda assim invertendo-o, dando mostras da gestação do pensador carismático e professor brilhante que viria a exercer particular atração sobre todos que dele se aproximavam. Confrontando o convencional e o estereotipado do repertório da literatura de viagem aos trópicos, James experimentava sua peculiar habilidade de empatizar com o mundo que o cercava, relativizando os códigos culturais enquanto tais. Para quem, como James, havia começado a viagem sofrendo de um terrível seasickness e que logo descobriria que “If there is any thing I hate it is collecting” (Letter to To Henry James, Sr., and Mary Robertson Walsh James, ALS: MH bms AM 1092.9 – 2517, Houghton Archives), a viagem ao Brasil acabou sendo bastante produtiva. Mostrando um viajante anti-convencional e empático, os papéis brasileiros de James ainda estão por merecer uma moldura teórica mais adequada ao tipo de experiência que ele viveu e de relato a partir dai produzido. Afinal de contas, por entre as dores e privações de uma viagem aos trópicos nos anos de 1860, residem nos papéis de James os traços de uma primeira descoberta do outro, a quem James, não sem esforço, amigavelmente apreciou.