Os Canela e eu

Tecendo Redes de Tradução e Tradição 

Por Marília Librandi

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Para minha neta, Eloise Flor

Mestiça, nascida no Brasil, eu poderia ter escolhido estudar o lado de imigrantes italianos da família, os Librandi, vindos da Sicília, ou os Hakime, do lado sírio, ambos por parte de minha mãe; mas foi a mistura de indígenas, negros e portugueses, por parte de meu pai, que prevaleceu em minhas escolhas intelectuais e acadêmicas. De pequena, eu era chamada de “indiazinha” e, às vezes, de “negrinha”, por familiares de minha mãe com a pele mais clara. Isso marcou meu imaginário e um sentido de pertença a uma história desconhecida. Filha de mãe solteira (uma estatística pouco falada, mas muito frequente no Brasil), nascida na cidade de São Paulo, só fui conhecer minha família paterna, que vivia no estado do Mato Grosso, aos 18 anos. Quando desembarquei no aeroporto de Cuiabá pela primeira vez, imediatamente reconheci o senhor que estava à minha espera e que eu nunca tinha visto antes: meu avô, Joaquim Nunes Rocha (1916-2011), “seu Rochinha”. “Como você me reconheceu?”, ele perguntou. A mesma cor de pele e o mesmo cabelo preto escorrido de meu pai e tios não deixavam dúvida, e pensei comigo: “Encontrei meus semelhantes”. Além disso, reconheci neles o meu silêncio, distinto se comparado ao universo citadino e artístico que eu conhecia de São Paulo. 

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Joaquim Nunes Rocha, meu avô paterno, e eu. Arquivo pessoal), 1990.

Alguns anos depois, em minha casa, quando a foto acima foi tirada, meu avô me revelou o que ninguém na família sabia: o elo indígena vinha não dos Boe-Bororo, oriundos do Mato Grosso, como pensávamos, mas dos Canela, integrantes do grupo Timbira, do tronco Macro-Jê, do Maranhão. Quem seria o/a antepassado/a Canela, do lado de sua mãe, meu avô não me disse. Talvez ele já nem soubesse, um passado antigo e perdido da gente cabocla e parda do nordeste do Brasil. Nascido no sul do Maranhão, perto do rio Lontra (um dos afluentes do rio Araguaia, hoje parte do estado do Tocantins), meu avô cresceu longe dali: “Depois que meu pai morreu, minha mãe, uma mulher muito forte, pegou os filhos, e num batelão (uma canoa bem grande) subimos o rio na contracorrente até chegarmos em Poxoréu, no Mato Grosso”. Na mesma gravação, ele me contou que a última imagem que guarda de seu pai é a dele, já doente, deitado em uma rede.

 

“Os Canela estão aqui!”

“Os Canela estão aqui!”, disse minha irmã Fernanda em uma mensagem de texto. Era julho de 2019 e eu estava em um congresso de estudos literários na Universidade de Brasília (UnB), apresentando minha nova pesquisa: “A rede na perspectiva do peixe. Literatura e pensamento Ameríndio”. Saí imediatamente da sala, e lá estava um pequeno grupo de indígenas Canela, mulheres e homens da aldeia Escalvado, do Maranhão. As mulheres falavam em canela, seu idioma nativo, e o senhor que estava junto com elas me disse, em português, que precisavam vender suas artes para custear passagens de ônibus e voltar para a aldeia. Dentre os artefatos, havia essa máscara ritual belíssima. 

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Senhor Antônio Ropká Canela segura a máscara ritual. Arquivo pessoal

Gravei uma conversa com o sr. Antonio Ropká Canela. Falando português, com um forte sotaque Canela, seu Antônio me contou: 

– É o enfeitado, é para a cultura, para a “tradução”… Bisavô me deixou, tem que usar: não deixar “tradução”, não deixar esse material…“Tradução” é essa, que bisavô me deixou. É muito beleza, para fortalecer os índios, os Canela.

– E como se chama essa máscara, seu Antônio? 

– “Transicional”. Pode fazer com uma dança, pode usar, pode cantar; ninguém vê sua cara, tem festa dele, tem cantigas dele.

– O senhor se lembra de alguma cantiga?

– Lembro. Meu bisavô me ensinava tudo [canta]. Canela não esquece “tradução” dele. Não pode esquecer não.

Tempos depois, mostrei a gravação para uma amiga, que me corrigiu a audição, afinando-a. O que seu Antonio disse foi “tradição”, e não “tradução”; “tradicional”, e não “transicional”. Nessa relação entre o sentido, dizendo uma coisa [tradição/tradicional], e o som, soando outra [tradução/transicional], emerge a possibilidade de pensar uma teoria auditiva da transmissão da tradição como tradução equívoca (ver Eduardo Viveiros de Castro), ou uma teoria da tradução como tradição equívoca. Uma tradição baseada na tradução indica a relação com o outro, de fora, de outra língua, como parte integrante de uma identidade relacional (característica ameríndia descrita pela etnologia); e o objeto da tradição, a máscara, é “transicional” porque opera o atravessamento de mundos, na tradição dos rituais e na diplomacia xamânica interespécies.

 

Curt Nimuendajú e as máscaras Kokrit 

É justamente a tradição dessa forma de vida, intimamente vinculada ao território, que está cada vez mais ameaçada. O termo Canela se aplica a dois povos Timbira: os Ramkokamekrá, como seu Antonio, da aldeia Escavaldo, e os Apaniekrá, da aldeia Porquinhos, ambas localizadas no centro-sul do estado do Maranhão, na região denominada politicamente de Amazônia Legal.

 Os cerca de 3 mil indígenas Canela da aldeia Escalvado vivem na região do Cerrado que, junto com a Amazônia maranhense, compõe as áreas mais afetadas pelo desmatamento, com o avanço da monocultura do plantio da soja, de cana-de-açúcar, da criação de gado em grande escala e da extração de minérios. Os povos da floresta e os povos indígenas do Cerrado estão unidos na luta em comum na qual território e modo de vida estão entrelaçados.

A situação era bem diferente na década de 1930, antes do contato assíduo com os não indígenas. Foi nessa época que Curt Nimuendajú conviveu com os Canela, num total de treze meses de pesquisa de campo entre 1929 e 1936. Em 1935, ele fotografou as máscaras do ritual Kokrit, que se parecem com a máscara de seu Antonio.

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(Reprodução de foto tirada por Curt Nimuendajú, 1935).

Ressalto a confecção da máscara feita com palha de buriti, a palmeira mítica do Cerrado, e sua relação com a água. Como explica Francisco Simões Paes, no artigo “Rastros do espirito” (2004), “Kokrit” denomina os seres aquáticos que habitam o rio Tocantins, termo que remete igualmente à sociedade dos mascarados, um dos seis grupos cerimoniais Canela. A máscara está presente também no ritual Tépyarkwa da sociedade Tép, dos peixes. A pesquisa que eu apresentava quando conheci seu Antonio era justamente sobre peixes, redes de pescar, e também redes de dormir, esse objeto ameríndio por excelência. Assim como esses artefatos, a máscara pode ser pensada como uma tecnologia de ponta, uma cosmotécnica, pois permite a comunicação entre espécies humanas e não humanas e o cosmos. E essa comunicação se atualiza nos rituais, como esse dos Canela, com os mascarados seres aquáticos mostrados na foto captada por Nimuendajú

 

Projeto Harvard-Brasil Central

Alemão, Curt tornou-se brasileiro e índio no Brasil ao ganhar o nome Nimuendajú, que significa “aquele que constrói seu próprio lugar no mundo”. Além de inaugurar a etnologia Guarani, fundou os estudos Jê, abrindo a trilha para a moderna etnologia sul-americana. 

Seus estudos The Apinayé (1939), The Serent (1942) e The Eastern Timbira (1946), publicados nos Estados Unidos, com tradução de Robert Lowie, serviram de base para a constituição do Projeto Harvard-Brasil Central (Harvard Central Brazil Research Project), realizado entre 1962 e 1967, e dirigido por David Maybury-Lewis (de Harvard) e por Roberto Cardoso de Oliveira (do Museu Nacional). O projeto transformou o estudo do parentesco na etnologia americanista, e, dentre as muitas teses escritas por nomes como Terence Turner, Roberto DaMatta, Anthony Seeger, entre outros, destaca-se o estudo dos Canela por W. Crocker, realizado ao longo de um período de quase 50 anos.

Como descreveu Nimuendajú, as sociedades Timbira orientais (além dos Canela, inclui os povos Krahô, Gavião Parkatejê, Gavião Pykobjê e Krinkatí) têm como traços comuns a forma circular da aldeia, a corrida de tora e o disco auricular, que era usado no rito masculino de passagem para a vida adulta, indicando a importância de ouvir a sabedoria dos mais velhos.

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(Vista aérea da Aldeia Escalvado, 1970. Foto de Ray Roberts Brown. Fonte: ISA)

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(Brincos auriculares – kyi –, foto de Curt Nimuendajú, 1931. Fonte: ISA)

Em carta de 1930 para o então diretor do Museu Paraense Emílio Goeldi, Nimuendajú comenta as máscaras rituais dos Canela e as compara às do povo Xerente. Enquanto este relaciona o ritual a uma cerimonia dedicada à divindade Waptokwa, o Sol, o povo Canela, diz Nimuendajú, “responde que foram ‘os nossos bisavôs’ que ensinaram”. Exatamente a mesma resposta ecoa, 89 anos depois, na fala de seu Antônio Ropka Canela: “Meu bisavô me ensinava tudo”. 

 

Redes Ameríndias

Que fio liga a ascendência indígena de meu avô ao bisavô de seu Antônio? Impossível saber com exatidão. Como me narrou meu tio Benedito Rocha, ninguém falava disso na família porque tinha-se vergonha de um passado indígena – o objetivo era ser o mais próximo da cultura branca dominante. 

Por isso, o resgate desse histórico é um reencontro com o im-próprio de nós, porque nos foi tirado de nossa história. Reconhecer e reivindicar essa pertença, por menor que ela seja, é um modo de autorreconhecimento validatório, de afirmar uma identidade continuamente massacrada, invisibilizada, violentada desde os tempos coloniais, já que se trata de uma história feita de ataques de bandeirantes e de fazendeiros locais, de massacres, de emboscadas, de raptos de mulheres e de crianças, de guerras intertribais estimuladas pelos colonizadores, e de epidemias. Reivindicar esse vínculo é um modo de sentir-se parte desse histórico, e de estar em defesa e a favor de quem é indígena e faz parte das comunidades indígenas. 

As questões pessoais tornam-se coletivas, em consonância ao movimento de pensar uma mestiçagem não marcada pela política de Estado de branqueamento, de modo a escapar de um nós colonial e ir em direção a um nós ameríndio. Acredito que narrativas de cunho pessoal podem dar conta desses históricos apagados em uma rede feita de faltas e de vínculos.

Trata-se de uma questão de parentesco e de afinidade, em busca das origens pela falta mesma de origem. No meu caso, é o encontro com o avô, pai de meu pai, que acabou por me doar um nome de antepassados, que nem ele conhecia: Canela. Em sua tese, Marcela Stockler Coelho de Souza mostra que a transmissão onomástica é a forma de relacionamento fundamental entre os Jê do norte. Ela sugere pensar o nome como princípio de transformação da pessoa nas cerimônias rituais, que atualizam a metamorfose mítica. Eu situo a pertença indígena como um local a habitar, para aterrar no território ancestral e mítico, na sucessão de muitos encontros (são os Canela, mas poderiam ser os Krahô, os Xavante, os Bororo, os Kaiapó, ou os grupos Tupi, os Guarani, os Surui, ou os Baniwa, e os Macuxi…).  

“No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é”, disse Eduardo Viveiros de Castro em uma entrevista. Uma frase que tocou fundo por seu dizer ambivalente: que sim, todos somos indígenas, porque não somos brancos, inclusive as pesquisas genéticas mostram a alta porcentagem de uma filiação materna indígena no DNA dos brasileiros. Exceto quem não é: todos aqueles que, no poder, nos impõem uma política genocida e etnocida, em curso agora e desde sempre.

Cada brasileiro/a pode reencontrar seus elos indígenas e fazer o caminho oposto ao do branqueamento, num movimento de auto-afirmatividade, reencontrando os vínculos perdidos, restituindo esse pertencimento no campo simbólico, e, com sorte, no campo vivencial, de modo a alterar a prática e a direção de poderes. Uma operação de des-conquista, um encontro no sentido de desvendar, tirar as vendas, e ver com olhos de lince o lance índio.

Temos uma causa em comum que é ameríndia e que, mais do que mundial, é planetária, como uma rede de proteção e cuidado do território pan-amazônico. Gostaria de terminar esse texto com a imagem de um tecido de vínculos ampliados em uma rede de aliança estendida mundialmente pelo presente indígena e que precisamos tanto viver, proteger, cuidar e amar. Mesmo que não se tenha relação familiar nenhuma com os indígenas no Brasil e nas Américas, hoje ou seremos todos indígenas por aliança, defesa e colaboração ou morreremos à mingua. 

“O Canela não esquece a tradução dele”. Um dia, chegarei até Escalvado para ouvir mais e melhor dessa tradição.

 

Marília Librandi é  atual diretora substituta do programa de português da Universidade de Princeton, e colaboradora do Brazil Lab. Ela também orienta estudantes indígenas e não-indígenas no programa de Pós graduação Diversitas, na Universidade de São Paulo.  Sua pesquisa e ensino versam sobre literaturas luso-brasileiras, Brasil indígena, e perspectivismo ameríndio. Seu email é marilialibrandi@gmail.co