Por Que Todas as Nossas Crianças Pertencem a Nós: E O Que Podemos Fazer

Carolina San Miguel é doutora em Design (DDes, 2019) pela Harvard Graduate School of Design. Ela é pesquisadora comunitária e estrategista de inovação, cujo trabalho é direcionado no design de ecossistemas amigáveis aos seres humanos para apoiar crianças e famílias em bairros das Américas. csanmiguel@alumni.harvard.edu

 

por Carolina San Miguel

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Carolina San Miguel desenha e ri com as crianças

 

Na  última década, como parte do meu trabalho, eu tive centenas de diálogos inspiradores com crianças em risco em cidades das Américas do Sul, Central e do Norte. Essas interações mudaram o curso da minha vida. Eu não pude mais fechar os meus olhos e fingir em ignorar essas crianças como se não elas fossem problema meu.

Não é como se eu nunca tivesse sido exposta à pobreza ou ao racismo. Eu cresci em um bairro violento, pobre e altamente vulnerável no sudeste do Brasil. No entanto, meu ponto de partida não determinou quem eu me tornei. Eu aprendi línguas e culturas, conheci pessoas de múltiplas nacionalidades e morei ao redor do mundo. Eu me tornei uma pioneira, como a primeira brasileira  a obter um mestrado em Habitação no Instituto Federal Suíço de Tecnologia (ETH) e ano passado, a primeira brasileira a obter o doutorado em Design em Harvard. Eu superei minhas circunstâncias, quebrando barreiras. É por isso que o foco da minha vida hoje é em ajudar e apoiar crianças e famílias, para ter certeza que outras crianças provenientes de circunstâncias semelhantes às minhas as superem e, ao invés de serem a exceção como eu, se tornem a norma e tenham sucesso.

Algumas dessas interações pungentes com crianças, como ilustro aqui em conversas tidas em três momentos diferentes enquanto eu trabalhava com elas, me ajudaram a entender melhor o mundo das crianças em situação de risco pelas cidades das Américas:

 

Diálogo 1 com uma criança pequena em Boston (Estados Unidos, 2018)

Eu: Qual é a sua raça?

Criança pequena anônima: Sou humana...

 

Diálogo 2 com uma criança em Cancun (México, 2015)

Eu: Se você pudesse escolher uma coisa para ter em sua casa, o que seria?

Criança anônima em risco: A praia.

Eu: Por quê? Você mora em Cancun. Tem um monte de praia aqui.

Criança: É. Mas... Eu nunca vou pra praia.

Eu: Por que não?

Criança: Eles não me deixam entrar.

Eu: Eles quem?

Criança: Ah tipo, você sabe né, os gringos, e os hotéis...

 

Diálogo 3 com um adolescente em Belo Horizonte (Brasil, 2012)

Eu: O que você está gostando mais dessa ação?

Criança adolescente anônima de um abrigo: Os estudantes de Arquitetura que vêm nos visitar.

Eu: Por quê? O que eles estão fazendo?

Adolescente: Porque eles estão nos ajudando.

Eu: Como?

Adolescente: Uai, eles conversam com a gente. Eles nos escutam. Tipo a gente escuta hip hop juntos. A gente dança...esse tipo de coisa...

Eu: Só isso?

Adolescente: Sim, professora. Eles se preocupam...com a gente.

 

Como esses diálogos sutilmente revelam, as crianças nas Américas são vítimas de violência estrutural. Em parte do meu trabalho, eu procurei descobrir algumas das razões para isso, juntamente com exemplos positivos de micro práticas comunitárias de ação de base que tenho feito de forma independente para apoiar crianças carentes em bairros. O que eu descobri através das minhas práticas de pesquisa é que a responsabilidade social para com nossas crianças é um compromisso que pertence a todos nós americanos, de norte a sul e que toda criança pertence a um lugar.

Uma a cada duas crianças no mundo sofre violência na forma de maus tratos físicos, sexuais e/ou psicológicos, de acordo com o relatório de 2018 da Organização Mundial de Saúde. Essa violência afeta o bem estar das crianças por onde quer que passemos. Enquanto eu trabalhei como estrategista de inovação para organizações locais sem fins lucrativos, apoiando crianças e famílias em Boston, no Harvard Center on the Developing Child, e ao mesmo tempo, obtendo meu certificado de especialista em proteção infantil pela UNICEF e pelo Harvard FXB Center for Health and Human Rights, eu descobri que um dos principais fatores que dificulta o desenvolvimento e o senso de autovalorização das crianças é a violação de seus direitos básicos. De acordo com o relatório recente e inovador A Familiar Face publicado pela UNICEF em 2017 sobre a violência na vida das crianças, hoje cerca de 300 milhões de crianças em todo o mundo entre as idades de dois a quatro sofrem maus-tratos na forma de punição física ou agressão psicológica por seus pais ou cuidadores. O mesmo relatório mostra que uma em cada quatro crianças menores de cinco anos tem mães vítimas de violência doméstica e que os adolescentes têm três vezes mais chances de morrer violentamente. O relatório também mostra que as meninas nem sequer estão seguras em suas próprias casas, onde em 90% dos casos de abuso sexual contra elas, o autor era alguém que a vítima conhecia.

Na América Latina não é diferente. O relatório mostra que a cada sete minutos uma criança é assassinada no mundo, vítima de homicídio, conflito armado ou violência coletiva. A maioria desses homicídios não ocorre em zonas de guerra, e sim no Caribe e América Latina, que apresentam as maiores taxas de homicídio contra crianças no mundo, em proporções quatro vezes maiores que a média global. Essas são, de fato, as únicas áreas no mundo em que os homicídios contra crianças estão aumentando. Apenas no Brasil, por exemplo, as taxas de homicídios contra crianças dobraram nos últimos 20 anos. O Brasil é hoje o país com a quinta maior taxa de homicídios contra crianças de 10 a 19 anos, com taxas mais altas encontradas em Honduras, El Salvador, Colômbia e Venezuela, segundo a UNICEF. Em um relatório de 2017, a organização humanitária global World Vision classificou o Brasil como o país mais violento contra crianças na América Latina por maus-tratos, abuso físico e psicológico, trabalho infantil, casamento infantil, ameaças on-line e violência sexual.

Você pode estar se perguntando por que estou trazendo esses números. Vou lhe dizer se puder ser breve e direta ao ponto: imagine uma criança de quatro anos, descalça, no meio de alguma favela no México ou no Brasil, carregando uma arma de assalto produzida pelos Estados Unidos e vendida a traficantes de drogas na América do Sul, enquanto outra criança pequena recolhe o dinheiro de um cara rico e privilegiado para comercializá-lo com heroína, um opióide ilícito feito de morfina que é encontrado em plantas de papoula produzidas no México ou na Colômbia e depois transportada ilegalmente para os Estados Unidos através do México e para a Europa através do Brasil. Imagine esses medicamentos opióides, todos feitos da mesma morfina, sendo manipulados quimicamente por empresas farmacêuticas norte-americanas e européias para serem transformados em analgésicos, também feitos de substâncias opióides viciantes, analgésicos estes estrategicamente anunciados e direcionados principalmente a usuários adolescentes, e consumidos por milhões de cidadãos norte-americanos e europeus que se tornam viciados, doentes mentais e, em alguns momentos, criminalizados em sistemas corporativos injustos de justiça juvenil que lucram exatamente com o encarceramento desses adolescentes. Agora imagine uma menina forçada à prostituição infantil ou ao tráfico humano para servir a um mercado de consumidores formado em sua maioria por homens brancos que vivem nos Estados Unidos ou Europa. Você então não diria que o problema da violência contra crianças envolve todos nós? Você não acha que estamos permitindo e patrocinando essas negociações?

Trago aqui esses cenários tristes porém realistas para mostrar que a violência contra crianças não começa na América do Sul para terminar na América do Norte ou no resto do mundo. Ela é um problema social estrutural e interdependente que está acontecendo nos dois sentidos, causado e moldado por múltiplas complexidades que envolvem todos e cada um de nós. A crise dos opióides, para dar apenas um exemplo, é uma emergência de saúde pública que acontece não apenas contra as crianças Latinx que cruzam as fronteiras entre México e Estados Unidos para escapar dessa guerra perversa das drogas, mas também uma ameaça direta que acontece contra as próprias crianças dos Estados Unidos nesse momento. Além do fato de 14,1 milhões de crianças viverem na pobreza nos Estados Unidos e, dessas, 5,3 milhões em níveis de pobreza extrema (Save the Children, 2018), os Estados Unidos atingiram um número de quase um milhão de usuários de opióides apenas em 2016, um aumento de 100% em relação a 2006, com a maioria desses usuários sendo exatamente adolescentes e jovens (NSDUH, 2018).

 

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Intervenção com crianças adolescentes em abrigos de Belo Horizonte

 

No entanto, é possível intervir contra essa crise e mudar as coisas gradualmente. Quando eu projetei uma ação participativa de base comunitária com crianças em acolhimento institucional e com estudantes de Arquitetura em abrigos enquanto eu trabalhei como professora universitária há alguns anos em Belo Horizonte, minha cidade natal no Brasil, eu ainda não sabia que poderíamos construir essa mudança incremental. Eu só sabia que tinha que fazer alguma coisa. O incômodo emocional que me surgiu após ler um artigo no jornal local sobre abuso infantil e o envio subsequente dessas crianças para instituições de acolhimento, me levou a buscar e juntar vários especialistas para trabalhar em conjunto com meus alunos, e assim intervir na reforma de cinco desses abrigos por toda a cidade,  trabalho este que foi escalado para mais 15 abrigos, e sendo posteriormente contratada como arquiteta pela prefeitura local para o redesenho e reforma modelo de um deles.

Eu liderei outra ação social de planejamento participativo  com crianças de uma comunidade em risco em um bairro de baixa renda em Cancun, no México, quando eu trabalhei como professora ajudando um grupo de estudantes na Harvard Graduate School of Design. Enquanto os alunos trabalhavam com a comunidade em uma oficina que projetamos, eu me envolvi ao mesmo tempo em uma oficina experimental com as crianças dessa comunidade local. A princípio, a idéia era cuidar das crianças enquanto os pais trabalhavam com os estudantes. Mas logo percebi que minha micro intervenção não acadêmica, porém empírica, permitiu as crianças de expressarem suas preocupações e trazer uma compreensão ainda mais profunda dos problemas enfrentados por essa comunidade, de uma forma divertida, relaxante e positiva.  A gente se divertiu, comemos tacos e desenvolvemos um senso de coletividade. Tanto no Brasil quanto no México, essas experiências fizeram com que as crianças se sentissem amadas, conectadas, bem cuidadas, responsáveis, ouvidas, fazendo parte de e pertencendo a um lugar. Não são estas, intervenções de design físico apenas, e sim ações participativas de base comunitária, ou seja, design como processo.

 

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Oficina com crianças em risco em Cancun

 

Quando vou a abrigos de jovens na Grande Boston para brincar com as crianças pequenas, conversar com os jovens, compartilhar meu passado, lutas e realizações, tento silenciosamente intervir e transformar as coisas, mesmo que de maneira muito micro, porém eficaz e incremental.  Quando eu trabalhava em um dos abrigos de Boston, a criancinha loira de cinco anos de idade, com olhos azuis surpreendentes, que me disse ser humana enquanto a gente brincava juntas com bonecas, em seguida me abraçou antes de eu me despedir, dizendo que me amava e que sentia minha falta. Essa mesma menininha havia sido vítima de violência doméstica e estava sob cuidado institucional de acolhimento legal. Eu carrego esses momentos, seus olhos, seus desenhos, suas vozes, sua inocência e seu amor sempre comigo onde quer que eu vá.  E sei que se posso fazer essas pequenas coisas com recursos financeiros bem limitados, qualquer um de nós também pode.

 

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Desenhos das crianças mexicanas que San Miguel mantém em sua sala de estar

 

Estamos gastando nossos esforços e economias como nações, em programas de mitigação de problemas de saúde física e mental que afetam nossas crianças quando deveríamos estar investindo estruturalmente em educação e cuidado infantil universais a todas as nossas crianças para combater essa situação de forma efetiva - virtualmente uma guerra contra nossas crianças. Quando os Estados Unidos como nação, decide não ratificar a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, de 1989, o principal instrumento jurídico global de defesa e garantia da implementação dos direitos da criança em campo em nossos bairros, ele está de alguma forma nos dizendo que esses cenários são permissíveis e que lobby político combinado a interesses corporativos importa mais do que o bem-estar de nossas crianças. Fechar nossas fronteiras para as crianças, nossos olhos para os números e para a realidade estrutural da violência e, ao mesmo tempo, negar nossa responsabilidade de mudar isso no nível do bairro não nos ajudará como sociedade.

 

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Uma placa dizendo "crianças ao ar livre" em Arlington, MA

 

Às vezes achamos difícil ou impossível mudar as coisas mas a minha própria experiência simples de trabalhar com as crianças nas Américas tem me mostrado que intervenções não-governamentais simples podem ser possíveis se trabalharmos coletivamente para construir comunidade.  Essas intervenções podem alterar progressivamente os resultados da vida de uma criança para sempre, trazendo-lhe os direitos básicos que ela merece, tirados dela em algum momento de sua infância. A responsabilidade social para com nossas crianças, é um compromisso que pertence a todos nós americanos, de norte a sul. Devemos, imediata e urgentemente, unir nossas forças para alcançar melhores resultados para todas nossas crianças se quisermos viver em um mundo que seja melhor para elas do que o mundo fragmentado em que vivemos hoje. É nosso dever, como cidadãos do mundo, e como seres humanos, dar às nossas crianças das Américas as melhores oportunidades, junto aos lares sem fronteiras mais seguros e amáveis dos lares, onde elas se tornem parte e finalmente pertencentes a um lugar, não importa de onde venham.